quarta-feira, 21 de setembro de 2011

EM NOME DA PAZ




Esta é uma tradução minha do texto do pacifista judeu israelense Uri Avnery publicada originalmente aqui. Tantos reclamam das versões "de esquerda" sobre a questão palestina. Quero ver contestarem esta.


TRISTE E FELIZ


Uri Avnery, 17/09/11


"Este vai ser o dia mais feliz da sua vida?" Um entrevistador local me perguntou, referindo-se ao próximo  reconhecimento  do Estado da Palestina pela ONU.

Eu estava tomado de surpresa. "Por que seria isso?", perguntei.

"Bem, por 62 anos você tem defendido o estabelecimento de um Estado Palestino ao lado de Israel, e aí está!"

"Se eu fosse um palestino, provavelmente estaria feliz", eu disse: "Mas, como israelense, estou um pouco triste."

DEIXA-ME explicar.


Eu saí da guerra de 1948 com quatro sólidas convicções:

1.       Existe um Povo Palestino, embora o nome da Palestina tinha sido varrido do mapa.
2.       É com esse Povo Palestino que devemos fazer a paz.
3.       A paz será impossível a menos que os palestinos tenham permissão para estabelecer o seu Estado ao lado de Israel.
4.       Sem paz, Israel não será o Estado Modelo com que sonhávamos nas trincheiras, e sim algo muito diferente.

Enquanto me recuperava das feridas, ainda de uniforme, me encontrei com vários jovens, árabes e judeus, para traçar o nosso rumo. Éramos muito otimistas. Tudo parecia possível.

O que estávamos imaginando era um grande ato de confraternização. Judeus e árabes lutaram valentemente uns contra os outros, cada um lutando por aquilo que considerava seu direito nacional. Agora era chegada a hora da paz.

A idéia de paz entre dois valentes lutadores após a batalha é tão antiga como a Cultura Semita. No épico escrito há mais de 3000 anos atrás, Gilgamesh, rei de Uruk (no Iraque de hoje) luta contra o selvagem Enkidu, seu igual em força e coragem, e após essa luta épica eles se tornam irmãos de sangue.

Lutamos muito e vencemos. Os palestinos perderam tudo. A parte da Palestina alocada pela ONU para seu estado havia sido devorada por Israel, Jordânia e Egito, não deixando nada para eles. Metade do Povo Palestino foi expulsa de suas casas e transformada em refugiados.

Era o momento, pensamos, para o vencedor atordoar o mundo com um ato de magnanimidade e sabedoria, oferecendo-se para ajudar os palestinos na criação de seu Estado em troca da paz. Assim, poderíamos forjar uma amizade que iria durar por gerações.

18 anos mais tarde eu tive essa visão novamente em circunstâncias semelhantes. Tivemos uma vitória impressionante contra os exércitos árabes na guerra dos Seis Dias. O Oriente Médio estava em estado de choque. Uma oferta de Israel para os palestinos de estabelecer seu Estado teria impressionado a região.

ESTOU contando esta história (de novo) a fim de firmar um ponto: quando a "Solução dos Dois Estados" foi concebido pela primeira vez depois de 1948, foi como uma ideia de confraternização, reconciliação e respeito mútuo.

Nós vislumbramos dois Estados vivendo juntos, com fronteiras abertas à livre circulação de pessoas e bens. Jerusalém, a capital conjunta, simbolizaria o espírito da mudança histórica. A Palestina seria a ponte entre o Novo Israel e o Mundo Árabe, unidos para o bem comum. Falamos de uma "União Semita" muito antes da União Europeia tornar-se realidade.

Quando a Solução dos Dois Estados fez sua marcha extraordinária a partir da visão de um punhado de pessoas de fora (ou malucos) para um consenso mundial, foi neste contexto que foi concebida. Não um plano contra Israel, mas a única base viável para a paz verdadeira.

Esta visão foi firmemente rejeitada por David Ben-Gurion, então o líder indiscutível de Israel. Ele estava ocupado distribuindo novos imigrantes judeus pelas vastas áreas expropriadas dos árabes, e ele não acreditava de modo algum na paz com eles. Estabeleceu o curso que os sucessivos governos israelenses, incluindo o atual, vêm seguindo desde então.

Do lado árabe, sempre houve apoio para esta visão. Já na Conferência de Lausanne, em 1949, uma delegação não-oficial palestina compareceu e, secretamente, ofereceu-se para iniciar as negociações diretas, mas eles foram rudemente rejeitados pelo delegado israelense, Eliyahu Sasson, sob ordens diretas de Ben-Gurion (como eu ouvi dele mais tarde).

Yasser Arafat disse-me várias vezes – de 1982 até sua morte em 2004 – que daria apoio a uma solução "Benelux" (sobre o modelo da união entre Bélgica, Holanda e Luxemburgo), que incluiria Israel, Palestina e Jordânia ("e, talvez, também o Líbano, por que não?").

AS PESSOAS FALAM sobre todas as oportunidades de paz perdidas por Israel ao longo dos anos. Isso é um absurdo: você pode perder oportunidades no caminho para um objetivo que você deseja, mas não de uma forma que abomina.

Ben-Gurion viu um Estado Palestino independente como um perigo mortal para Israel. Então ele fez um acordo secreto com o rei Abdullah I, dividindo entre eles o território atribuído pelo plano de partilha das Nações Unidas para o Estado Árabe Palestino. Todos os sucessores de Ben-Gurion herdaram o mesmo dogma: o de que um Estado Palestino seria um perigo terrível. Por isso, eles optaram pela chamada "opção jordaniana" – manter o que resta da Palestina sob o tacão do monarca da Jordânia, que não era palestino (nem mesmo jordaniano - sua família veio de Meca).

Esta semana, o atual governante da Jordânia, Abdullah II, ficou furioso quando soube que mais um ex-general israelense, Uzi Dayan, novamente propôs incorporar a Jordânia à Palestina, com a Cisjordânia e a Faixa de Gaza como "províncias" do reino Hachemita. Este Dayan é, ao contrário de seu primo mais velho, Moshe, um tolo pomposo, mas mesmo um discurso de uma pessoa como essa enfurece o rei, que possui um medo mortal de um fluxo de palestinos expulsos da Cisjordânia para a Jordânia.

Três dias atrás, Binyamin Netanyahu disse a Cathy Ashton, a patética "Secretária de Relações Exteriores" da União Europeia, que aceitaria qualquer coisa que fosse menor que um Estado Palestino. Isso pode soar estranho, tendo em vista o discurso "histórico" que ele fez há menos de dois anos, no qual expressou seu apoio à solução de dois Estados. (Talvez ele estivesse pensando em um Estado de Israel e um Estado dos Colonos.)

Nas poucas semanas restantes antes da votação da ONU, nosso governo vai lutar com unhas e dentes contra um Estado Palestino, apoiado por todo o poder dos EUA. Esta semana, Hillary Clinton extrapolou seu próprio discurso quando anunciou que os EUA apóiam a Solução dos Dois Estados e, portanto, se opõem a qualquer votação na ONU de reconhecimento do Estado Palestino.

À PARTE as terríveis ameaças do que vai acontecer após a votação da ONU por um Estado Palestino, os líderes israelenses e americanos asseguram-nos que essa votação não vai fazer qualquer diferença.

Se isso é verdade, porque brigar por isso?

Claro que vai fazer diferença. A ocupação vai continuar, mas será a ocupação de um Estado por outro. Na história, os símbolos contam. O fato de que a grande maioria das nações do mundo terá reconhecido o Estado da Palestina será mais um passo para conquistar a liberdade para os palestinos.

O que vai acontecer no dia seguinte? Nosso exército já anunciou que concluiu seus preparativos gerados por claras manifestações palestinas de que irão atacar os assentamentos. Os colonos serão chamados a mobilizar suas "equipes de reação rápida" para enfrentar os manifestantes, cumprindo assim as profecias de um "banho de sangue". Depois disso o exército vai se movimentar, puxando muitos batalhões de tropas regulares para outras tarefas e convocando unidades da reserva.

Algumas semanas atrás eu apontei para sinais ameaçadores de que atiradores seriam empregados para transformar manifestações pacíficas em algo muito diferente, como aconteceu durante a segunda intifada. Esta semana isso foi confirmado oficialmente: atiradores serão empregados para defender os assentamentos.

Tudo isso constitui um plano de guerra para os assentamentos. Simplificando: uma guerra para decidir se a Cisjordânia pertence aos palestinos ou aos colonos.

Em um giro quase cômico dos eventos, o exército também está fornecendo meios de dispersão de multidões para as forças de segurança palestinas treinados pelos americanos. As autoridades de ocupação esperam que essas forças palestinas protejam os assentamentos contra seus compatriotas. Uma vez que estas são as forças armadas do futuro Estado Palestino, que é antagônico a Israel, tudo isso soa um pouco confuso.

De acordo com o exército, os palestinos terão balas revestidas de borracha e gás lacrimogêneo, mas não o "Skunk".

O Skunk é um dispositivo que produz um cheiro insuportável que se fixa a manifestantes pacíficos e não se dissipa por um longo tempo. Tenho medo de que quando este capítulo chegar ao fim, o fedor vai impregnar-se do nosso lado, e não deveremos nos livrar dele por um longo tempo.

VAMOS DAR livre curso à nossa imaginação por apenas um minuto.

Imagine que no iminente debate na ONU algo incrível aconteça: o delegado israelense declare que, após as devidas considerações, Israel decidiu votar pelo reconhecimento do Estado da Palestina.

A assembleia travaria em descrença. Após um momento de silêncio, aplausos iriam soar. O mundo seria energizado. Durante dias, a mídia mundial não falaria de outra coisa.

O minuto de imaginação passou. De volta à realidade. De volta ao Skunk.



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